OVELHAS E LOBOS – O Um e sua divisão: coração e cérebro.

OVELHAS E LOBOS – O Um e sua divisão: coração e cérebro.

AUTORIA: Rita Della Rocca
ANO DE CRIAÇÃO: 2018

OBSERVAÇÃO

OPA Nacional SP 2018. Leitura em plenário no feita por Ines, Sandra Mouta, Anna K e Rita.

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Tempos humanos encurtados em mim.

Tempos perceptivos não mais são permitidos…

Tempo da semente romper, tempo de desabrochar , tempo de estar, tempos internos, externos, tempo do deserto silencioso não se faz mais. O percurso no labirinto sensível se transformou em infinitos desdobramentos, tantos, que o deserto se fez em mim e fui me transformando em caminhos curtos sem respirações completas.

O que era fluxo tornou-se entrecortado, recortado, múltiplo, solitário, exclusivo, especializações cartesianas e o mundo tornou-se dicotômico e absoluto em seus opostos, eu e você, dia e noite, falso e verdadeiro, certo e errado… Definições artificiais de saberes naturais.

Eu sei você ignora.

Eu ensino você aprende.

Artifícios do ego artificializando tudo, a vida conservantes, estabilizantes, congelamentos. As cidades se encheram de pontes e nós destruímos as que nos uniam. O fim dos conteúdos ingênuos das descobertas. Construímos pequenas gavetas estagnadas e herméticas em seus rótulos e definições. Labirintos de percursos espirituais desfeitos, os desertos emudeceram e o eu sei se tornou nossa maior máscara, nossa armadura de defesa para o que não sabemos. Todas as infinitas combinações naturais saíram do nosso campo perceptivo e ignoramos nossas precariedades. O improviso virou técnica, o imprevisto eliminado, as respostas inesperados devaneios, negamos nossa tão rica fragilidade.

Nas regras estabelecemos dualismos absolutos, esquecendo a natureza única intrínseca a cada materialidade.

A carne como morada do espírito, minha primeira casa. “ Eu vos enviarei como ovelhas entre lobos. Sede portanto, astutos como serpentes e inofensivos como as pombas.” Mt 10:16

A carne é finita, característica de toda e qualquer matéria física, a carne tem em seu cerne o instinto de sobrevivência, e seu caráter é a finitude.

O espírito é eterno, tem a capacidade de tudo acolher, a mulher adultera, a samaritana, o perdão da ignorância na condenação de Cristo. “Pai perdoai-os, eles não sabem o que fazem.” Lc 23:34

E assim os espíritos se fundiram aos corpos com o objetivo de sutilizá-los, de renascê-los com Cristo, até a unificação completa fazer-se luz.

Não mais corpo e espírito, não mais instinto e transcendência, ultrapassar a razão e apenas ser.

Liberando níveis de consciência múltiplos, transformando cada experiência em única. Não mais pautar o olhar, o cheiro, o tato, a audição, o gosto em memórias de experiências do passado. Toda vivencia é em si mesma completa, pontes reais entre o antes do segundo e seu depois. Suas configurações são únicas, seus significados também. Breves intervalos de realidade, concretude efêmera de fazer-se nova sempre.

Deixar-se viver tudo pela primeira vez, sem perder ou negar o que se sabe. Como disseram os artistas do modernismo europeu: “É preciso três anos de treino para desenhar como Leonardo Da Vinci e talvez não baste uma vida inteira para desenharmos com a espontaneidade de uma criança.” Onde um círculo é um carro, uma linha um pássaro, uma cor o mundo inteiro. “Cada época tem sua própria inteligência”

Nenhuma materialidade é por si mesma, como disse o grego Protágoras: “o homem é a medida de todas as coisas”. Nós as definimos como são e como não são. Estagnados ou fluídicos são estados escolhidos. Um é o outro apenas um simulacro. Se até a agua quando parada apodrece, pergunto: Porque tornamos em definições absolutas todos e tudo a nossa volta e em nós mesmos? Porque uns são lobos outros ovelhas? Se Deus é um em sua criação, não são dois. Embora a matéria necessite do par de opostos para criar um terceiro corpo, somos todos, o um indivisível. O criador, Deus, cujo filho se fez carne para ensinar a construir a ponte, a integração da matéria e o espírito, o amor.

Diversidade nos trouxe o Espírito Santo, seu dom e legado, impulso para novas associações e descobertas perceptivas. Não mais eu e você, mas, nós, a terceira pessoa indefinível em sua individualidade. Novas possibilidades de ser, o outro como espelho de mim.

Somos ação, somos criação, somos natureza.

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