Fractais

Fractais

AUTORIA: Rita Della Rocca
ANO DE CRIAÇÃO: 2017

OBSERVAÇÃO

Escrito no Opa Nacional de Brasília 2017

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A grande jornada humana se faz de muitos nascimentos e renascimentos.
O homem, após ultrapassar o estágio mais físico de autopreservação, adentrou a formação daquilo que o constitui hoje. Somos construtores de nossos saberes e percepções. Como afirmaram os gregos: somos a medida de todas as coisas. Conceitos e preconceitos são gerados por nossas vivências, que ultrapassam a consciência de superfície e adentram camadas além da pele, dos corpos e dos fatos.
Vivências estas captadas por nosso campo sensível, o impalpável.

Ser artista é incorporar aquilo que já percebemos e vivemos – nunca o que sabemos conscientemente – para concretizar isso no campo da matéria. Essa concretização exige novas composições e níveis de relação.
Quando Pollock, artista do expressionismo abstrato norte-americano, encharcava suas brochas em latas de tinta e respingava sobre a tela, sobrepondo muitas camadas de respingos, não sabia que estava utilizando a estrutura fractal, apenas realizava sua vontade de criação.

Monet, desta vez um impressionista, ao investigar o impacto da luz sobre a matéria, pintando sua série da catedral de Rouen, nos revela: até as pedras mudam. Ele nos mostra a impermanência das densidades na percepção humana.

Foram tantas descobertas nas artes e na ciência, preenchendo-nos de saberes específicos e desconectados, que essa desconexão é o que constitui atualmente nosso olhar sobre o mundo, nossos julgamentos, gostos e valores.
As demandas exteriores passaram a nos preencher tão intensamente, que acabamos nos distanciando muito de nossa origem de luz, e ela está a tal profundidade, que nossa memória não a abarca mais.

Sentimos, no entanto, um chamado desconhecido, que nos inquieta, incomoda e que por vezes angustia. Nossas camadas, crenças e saberes não estão nos servindo mais. Percebemos que nossas ações estão desconfigurando o planeta e não sabemos aonde ir, o que fazer, não enxergamos além do que dominamos. Estamos defronte de um grande vazio.

Como a boneca de sal, necessitamos decidir nos revelar além das superfícies já conhecidas. É preciso nos entregarmos à imensidão de nossa natureza mais profunda. Faz-se necessário o retorno ao lar. Nessa jornada, é preciso despir-nos, desapegar-nos de tudo que já foi. O aprendido, o pensado, o projetado, o imaginado, tudo isso nos constitui, mas não nos serve mais. Devemos reconfigurar-nos.

A linha curva dos círculos da natureza transformou-se, a partir da Revolução Industrial, em retas criadas pela razão humana. Euclides, em sua geometria plana, nos trouxe novamente o universo curvo. Agora a curva é constituída por todos os segmentos de retas desvendados pelo homem.

O vazio traz fluxo, movimento, a matéria toma, constantemente, outra configuração. Um corpo único se desdobra no espaço e constitui uma infinidade de formatos, todos únicos em suas particularidades, porém iguais em suas raízes.

O que me diferencia de ti? Nossos conceitos e preconceitos, verdades impermanentes. Saiamos de nossas zonas de segurança, aquelas já conhecidas e dominadas; lancemo-nos no vazio, permitamos que as coisas nos toquem sempre como se fosse a primeira vez. Saiamos de nossos pensamentos, sejamos o que realmente somos: seres que pensam.

Mergulhemos na infinitude das interconexões e deixemo-nos reconfigurar; ampliemos nossa percepção, degelemos nossa mente. Permitamos à arvore da vida viver seu outono e abramos as portas e janelas de nosso coração. As paisagens vistas serão novas e desconhecidas, mas percebidas por nós. E nelas sentiremos o que nos constitui.

Pessoas e coisas são você em outro formato. E você lembrará em sua carne o nome soprado por Deus em seu nascimento. Você será um em todos a partir Dele.

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